terça-feira, 11 de janeiro de 2011

BIODESAGRADÁVEIS

Arte digital por Air'yn Cochrane

Na semana passada, falei aqui sobre a questão do “politicamente correto”, ou incorreto. É lógico que, a esta altura da vida, não vou assumir uma postura de ser contra tudo e todos. Mas acho muito importante termos em mente que, face a tantos discursos que se dizem corretos, é vital exercermos a arte da crítica, e não nos deixarmos levar por modismos criados em nome do bem-estar global, paz mundial e outros.
Por exemplo, uma coisa, que entendo séria e preocupante, são os “fiscais da sustentabilidade”. Antes eram os “fiscais do Sarney”, que se sentiam no direito de apedrejar qualquer um que estivesse como uma etiqueta na mão, por considerá-lo um antipatriota. Esse é um assunto que mereceria em enfoque engraçado e um sério, para causar reflexões sobre o radicalismo e desrespeito que isso pode gerar no presente e no futuro. Se bobear, daqui a algum tempo, os “xiitas do Greenpeace” vão se sentir no direito de realizar “atentados ecológicos” contra essas pessoas que insistem em lavar a calçada. Não tenho nada contra o trabalho do Greenpeace, mas tudo contra qualquer tipo de radicalismo em nome de uma causa.
Me preocupa o fanatismo: quem soltar um “pum” pode ser apedrejado por estar aumentando o buraco na camada de ozônio, com emissão de gases (pelo menos não vão queimar o porcão – ou porcona - como na Idade Média, porque isto estaria contribuindo para o aquecimento global). A ecologia tem certamente um importante papel na preservação da vida e até mesmo no relacionamento humano, mas corre um sério risco de estar se transformando numa espécie de religião. Teríamos “cruzadas verdes” ou “cruzadas ecológicas” para converter, à força, aqueles que não estão a fim de salvar o planeta, trocando “Deus” por “natureza” e “divino” por “sustentável”.
Repito que as preocupações com as mudanças no planeta são válidas e importantes, mas a falta, ou distorção, de informações é um campo vasto e fértil para que nos deixemos coibir ou enganar. Hoje, tudo se diz “sustentável”. Já pago impostos para caramba (até demais) e querem me obrigar a tomar banho rápido e fechar logo a água. Eu sei que o desperdício é ruim para todos, mas, por favor, deixem-me relaxar um pouco. Quero ter o direito de exercer o meu bom senso!
E, vamos combinar: é muito exagero e muitas regras. O que aparece de gente dos mais diversos tipos, com todo tipo de solução e modos de vida (para a vida alheia) é brincadeira. Já inventaram que o correto é urinar dentro do box, para economizar a água da descarga. E o que virá a seguir? Será que o uso do papel higiênico, após as necessidades (naturais), será considerado antiecológico porque está gerando uma grande quantidade de papel que não pode ser reciclado? Teremos de lavar as “partes”? Mas aí não vamos gastar mais água?
Já sei o que me dirão os militantes da causa verde: Afinal, não custa um pequeno sacrifício em nome de uma causa maior! Vejam o perigo dessa afirmação, pois ela já justificou grandes equívocos na história da Humanidade. Imaginem a quantidade possível de situações, ao mesmo tempo, sérias e engraçadas, que surgem deste politicamente correto sustentável. Daria para escrever um livro inteiro. Coisas do tipo: lave suas camisinhas e dobre-as para o futuro, pois elas demoram 1000 anos para serem absorvidas pela natureza (posso afirmar 10.000 anos, pois a maioria das pessoas não terá interesse ou condição de comprovar a informação), mas se sentirão, de algum modo, pressionados (será que eu sou culpado inadequado neste mundo de pessoas sustentáveis?).
O preocupante é que, como a causa ecológica é nobre (e é mesmo), qualquer sugestão, por mais estúpida que seja, é recebido como uma ideia revolucionária, a ser seguida fielmente, e sem questionamento, por todos. Mas, temos que pensar que, entre toda multidão de moralistas, existem os fanáticos, os infelizes, os frustrados e até os perversos, loucos por uma desculpa para exercitar o seu ódio. Uma causa que é maior do que um individuo isolado, é um excelente álibi para ferrar o próximo.
Para finalizar, dando minha contribuição à causa da sustentabilidade, prometo me manter o mais longe possível de qualquer tipo de pessoa biodesagradável que cruzar o meu caminho. Mas, sem radicalismo: eu até votei na Marina!

(Crônica: Sylvio Bazote / Adaptação: Jorge Marin)

Um comentário:

  1. Parabéns pelo que foi escrito! Eu me preocupo em conservar o mundo em que vivo do mesmo jeito que quero ter um ambiente agradável na casa onde moro, pois no final das contas são a mesma coisa. Assim como não quero que ninguém diga como devo manter meu banheiro limpo, deixem que eu tenha a liberdade de escolher como viver neste planeta.

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