quarta-feira, 29 de maio de 2013

JOVENS CAÇANDO DE NOITE


Aguardando a esposa no salão de beleza, fico avaliando o abismo entre o universo feminino e masculino.   Uma menina chega radiante como se tivesse conquistado o campeonato mundial de qualquer coisa, comunicando para as mulheres do salão (não sei o que é que tô fazendo aqui) que conseguiu comprar um par de botas para ir na festa country.  Diz que conseguiu um desconto ótimo (foi apenas quatrocentos reais, disse) e vai comprar mais uma coisa de couro (não escuto muito bem porque estou ouvindo uma música no celular) e fazer mais uma hidratação e uma depilação e unha e um monte de outras coisas pra ir na festa country.  Esse “ir na festa country” aí significa somente uma coisa: homem.  Elas vão à caça!

As outras moças também estão alvoroçadas: escova progressiva, acessórios, roupas novas, etc etc.  Para dar uma provocada, pergunto:
- Gente, vocês estão fazendo este aparato todo pra ir naquele local empoeirado, barulhento, sujo, frio e caro.  Vale a pena?
Uma delas, mais sincera, reconhece:
- O senhor é que não sabe, moço!  Mas arrumar homem, hoje em dia, tá muito difícil...  Quer dizer, arrumar até que a gente arruma.  Mas um que queira ficar mesmo com a gente, tá difícil, quase impossível.

Para não polemizar muito, atravesso o corredor e vou para o outro lado onde, numa loja de discos antigos, uma rapaziada também faz uma algazarra.  A tal festa country deixa os hormônios em fúria, penso.  Lá, ao contrário do universo feminino, ninguém se preocupa em comprar roupa, nem fazer barba.  Pra falar a verdade, acho até que muitos nem vão tomar banho.  A preocupação é num esquema de entrar com umas garrafas de uísque escondidas em cantis.  Até aí nada demais, pois eu também já vivi esse dilema no passado.  Não resisto e também lá, no covil masculino, resolvo provocar:
- Cara, vocês hoje em dia é que se dão bem.  É só chegar lá e a mulherada cai matando em cima de vocês.
- Nada a ver, véi! – diz uma deles.  Eu nunca sei se eles me chamam de véi porque é a gíria ou porque sou véi mesmo.  E continua:
- Mulher tem muita, sabe?  Mas uma assim legal mesmo, pra ficar, tá difícil.

Fico pensando.  O universo jovem de hoje fica além do paraíso com o qual sonhávamos quando éramos jovens.  Um lugar onde todo mundo já vai para a balada a uma da manhã, prontos para o que der e vier, onde os rapazes são caçados e disputados pelas moças.  Estas, ao contrário do nosso tempo, têm independência, não têm pressa de casar e até vangloriam-se de ter ficado com dois ou três numa noite.  Ou seja, liberdade total pra todo lado...

No entanto, fico olhando pra carinha deles, aquela agitação, aquele fuzuê, em muito parecidos com o que vivíamos na década de setenta e poucos.  Só que, há quarenta anos atrás, a coisa não era tão self service como parece ser hoje.  Havia uma certa luta, um jogo de conquista, alguma resistência, sei lá.  E olhem que não falo isso por moralismo, mas, saindo da loja com um vinil do Gentle Giante debaixo do braço, comento baixinho:
- Coitados...

Crônica: Jorge Marin
Foto: Jan Plexy, disponível em http://janplexy.deviantart.com/art/Techno-Party-24633792

3 comentários:

  1. Luiz Paula Filho2 de junho de 2013 15:15

    Boa tarde meu amigo Jorge. Parabéns pela matéria!

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    1. Obrigado, Luiz. Eu não sou saudosista mas, com o passar dos anos, tenho adquirido uma certa preguiça dessa globalização (relativa a rede globo) dos costumes. O importante é que mandamos bem, né véi?

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  2. Coisas da vida: aquilo que é oferecido fácil ou em grande quantidade tende a perder valor de mercado.
    Se antes era necessário imaginar os momentos e palavras para causar impacto, me parece que agora as coisas acontecem tão rápido que não se tem o prazer de desfrutar o momento como uma conquista, mas sim como um direito que tende a gerar mais frustração do que satisfação, caso não aconteça.
    É... cada época tem seus desafios. Ficar ou namorar, eis a questão!

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