sexta-feira, 2 de outubro de 2015

TÓCHICOS: BEBENDO MACONHA (FINAL)


Já havia alguns dias que minhas tias tinham recebido a notícia de que os “tóchicos” estavam invadindo São João. Naquele glorioso ano de 1972, não se falava de outra coisa na cidade.

Muitos apregoavam o fim dos tempos, outros citavam a Bíblia naquela parte sobre Sodoma e Gomorra, pois, diziam alguns, as tais drogas faziam as pessoas agirem diretamente no pecado, mesmo sem vontade. Contam que uma certa moça, moça de família, até concordou em fornicar com o seu namorado, mesmo sem ter nem noivado.
- Isso é coisa de “cumunista” – dizia o sô Arnaldo, nosso vizinho.

Eu, na bocozice dos meus quatorze anos, morria de medo dessas coisas estranhas. Embora estivesse autorizado a sair de casa, para ir trabalhar lá no Banco Commércio e Indústria, eu jamais me arrisquei a ir num dos tais "barzinhos" porque me disseram, com conhecimento de causa, que lá eles colocavam uma tal de maconha na sua bebida. Aí, você endoidava de vez!

Teve um dia que eu fui lá na Delegacia, entregar umas correspondências pro Monteiro, e, na saída, um soldado disse que o delegado, que era novo na cidade, queria falar comigo. Cagão que só, morri de medo, mas entrei todo solícito com minha pastinha, e o tal homem mandou eu sentar, e disse solenemente:
- Você sabe que você está na lista?

Bom, é preciso abrir um parêntese para explicar essa coisa de lista: nos tempos da ditadura militar, era muito comum os policiais procurarem células comunistas nas cidades. Assim, havia o grupo dos onze, que era um tipo de organização criada pelo Brizola para apoiar o Jango. Aí, a polícia ficava fazendo uma lista pra tentar adivinhar a “escalação” completa dos onze do grupo.

Mas, como espionar comunista é pouco, eles também tinham uma lista dos “viados” (naquele tempo podia falar) e outra, mais recente, dos maconheiros, e era nesta que eu estava. Quase desmaiei quando o delegado falou, pois embora eu já tivesse lido sobre a maconha num livro de botânica, e soubesse que ela era fumada e não bebida (coisa que as minhas tias jamais concordaram), eu nunca tinha visto um cigarro daqueles, mesmo porque eu detestava cigarro, acho que é porque eu tinha bronquite.

- Eu não acredito que você, um jovem trabalhador, use essas coisas não, meu filho, mas, se seu nome está na lista, é porque você deve conhecer quem usa. Aí, eu só queria saber mesmo é o nome das pessoas, pra dar, assim, uma orientação, sabe como é.

Imaginem vocês que, já naquele tempo, me ofereceram a “delação premiada”, mas, tanto em 1972 como hoje, eu sempre tive um ódio mortal de dedo duro. Eu não me lembro como, mas eu saí e fui subindo a rua Capitão Basílio, preocupado, pensando assim:
- Não adianta nada ser inocente, pois se o seu nome tá na lista, aí já era!

Crônica: Jorge Marin

Um comentário:

  1. Meu amigo Jorge na lista do tóchico... ê injustiça, sô!
    Por sugestão, poderia ter se tornado uma espécie de Cristiano F., 14 anos, drogado e prostituído; mas seguiu o (bocó) caminho dos bons e se tornou um cara legal (e legalizado)!

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