sexta-feira, 5 de junho de 2015

EU QUERO SER RICO!


Aos domingos, logo pela manhã, escutávamos o sermão da montanha. Não, não somos tão velhos assim, embora alguns colegas afirmem que o Nilson Baptista era primo em primeiro grau do João Batista, aquele!

Meninos, não conseguíamos tirar os olhos do padre Oswaldo que explicava toda aquela coisa de ser humilde e ir para o céu. Descíamos o Largo da Matriz ali pelo lado da casa dos Pulier, e gritávamos uns para os outros:
- Eu sou mais humilde que você!
- Não, eu é que sou!
E assim, naquela algazarra infantil, deixávamos felizes os nossos pais, quando, na verdade, tratava-se de uma corrida para o céu.

O tempo passou, deixamos de acreditar no céu, e, após um breve período acreditando em discos voadores, passamos a acreditar em médicos (algumas meninas, nossas ex-coleguinhas, em cremes rejuvenescedores).

Uma coisa, no entanto, ainda não me sai da cabeça, e acho que também de muitos dos meus contemporâneos, que é a história dos humildes herdarem a terra como herança. Isso fez um estrago danado conosco, pois, pensando que ser humilde é mesma coisa que ser modesto, passamos a adotar uma postura de ter vergonha de nos destacar, ou de mostrar os próprios talentos.

Imaginem o Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro, voltando para a sua Bauru e, ao ser questionado sobre o seu feito histórico, respondesse:
- Foi nada não, gente, só uma viagenzinha ali mesmo.

Ser rico, então, dentro da mesma lógica, seria o pior dos sofrimentos. Acho que é reflexo daquela história do camelo passar no fundo de uma agulha, uma coisa meio psicodélica. Tanto que, quando o bilionário (agora apenas milionário) Eike Batista começou sua queda, muita gente comemorou, dizendo:
- Agora, ele vai se transformar numa pessoa melhor. Santa inveja!

O fato é que o ensinamento cristão tem muitas riquezas, isso eu não louco de negar. No entanto, a interpretação literal, quase psicótica, dos conteúdos bíblicos podem muitas vezes causar sérios problemas, quando confrontados com a realidade do mundo atual.

E isso vale para todo o tipo de fundamentalismo. Seja o que critica as pessoas por praticarem atos diferentes daqueles catalogados por seus livros “sagrados”, seja o que faz as pessoas crerem que são indignas, insuficientes e pecadoras.

Se há um deus, ele é pai, ou mãe, e, se assim for, faço questão de ser rico, e mostrar a minha riqueza: “mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo”. Palavras salvadoras de Walter Franco.

Crônica: Jorge Marin

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