quarta-feira, 2 de novembro de 2016

NOSSO MUNDÃO


Esse lugar foi o centro nervoso de nosso MUNDÃO, e era nele que toda fantasia acontecia. A paisagem mudou muito, mas confesso ainda sentir aquela energia pura e boa de infância impregnando o lugar. Uma pequena rua sem saída, que chamávamos carinhosamente de BECO. Por sinal, somente saíamos dali para escorregar no barranco do córrego, brincar de pique-pega no quarteirão, descer de carrinho de rolimã o morro da Matriz ou dar uma fugidinha até a casa de algum vizinho que já tivesse televisão, para assistir os inesquecíveis seriados VIGILANTE RODOVIÁRIO, PERDIDOS NO ESPAÇO e outros.

Na época, morava no BECO a família do casal Sr. Luiz Paula e dona Terezinha (Totonho, Luiz Arruda, Marcinho, Quiquinho e nossos saudosos Beto e Fernandinho) além da casa do Sr. Benjamin Detoni. Hoje, no local, ainda reside o amigo Luiz Paula e sua admirável família. No bequinho menor, moravam o Sr. Laureto e o Sidney Baptista (China). Abro aqui um pequeno parêntese pra dizer que guardo na memória com muito carinho a família do Sr Luiz Paula e dona Terezinha, pois teria sido, sem sombra de duvidas, minha segunda casa na infância.  

No espaço que hoje se encontra um dos novos prédios, era um enorme terreiro que pertencia ao Dr. Nico Ferreira. Muitas bananeiras e um imenso pé de eugênia ficavam separados do beco apenas por uma pequena cerca de bambu. Ali, através de pequenos buracos que fazíamos na cerca, aconteciam sorrateiras incursões pra pegar algumas frutas “emprestadas”. Se antes, em toda casa havia um ou mais pés de frutas, hoje, uma imensa floresta de concreto tomou o lugar deles.

Ainda não havia calçamento no local, e ficávamos que é poeira pura da cabeça aos pés. E olhem que naquele tempo nem existia máquina de lavar!
Batíamos pelada na calçada, marcando as traves com pedras, e cansei de chegar em casa sem a unha do dedão. Sr. Devolde, com sua inesquecível farmácia, que o diga!

Certa vez, comemos espinafre na horta da dona Terezinha, pois nossa intenção seria ver in loco, o efeito mágico daquela hortaliça. Foi quando um de nós teria sido amarrado no tronco de uma mangueira pra que pudesse poderosamente arrebentar as cordas.  Pior que as horas foram se passando e nada. O danado do espinafre não fazia efeito e a cobaia não conseguia de jeito nenhum se desvencilhar da corda. Como a coisa não se manifestava, o algoz, simplesmente, atravessou a cerca que fazia limite com sua casa e foi embora, deixando sozinho nosso pobre projeto de Popeye pedindo socorro. Se alguém não o tivesse desamarrado, possivelmente, deveria estar preso lá até hoje.

No inicio do beco, fazendo frente para Avenica Zeca Henriques, hoje Rua Cavalheiro Verardo, morava de um lado a família do Sr. Miguel Fam, e de outro a do Sr. Carlito Guazzi. No terreiro desse último, existia um pé de mamão, onde ficávamos diariamente a pedir alguns talos para que pudéssemos fazer setinhas de papel e soprá-las em alguma caixa de marimbondos. Por sinal, era um brinquedo que gostávamos muito. Habilidade é que não nos faltava, principalmente quando enrolávamos as tiras de papel para transformá-las em projéteis. Assim, depois de uma sutil lambida para fazer o acabamento, era só colocar no canudinho e, literalmente, mandar bala. Hoje, vemos o quão perigosa era essa brincadeira, principalmente para nossos olhos. O interessante é que ninguém  nunca se machucou com ela.

Naquele nosso mundão, enquanto ficávamos a degustar algumas balas de Drops Dulcora, brincávamos de SOLTAR PAPAGAIO, BOLINHA DE GUDE, PEÃO, TRIÂNGULO, MÃE DA RUA, BANDEIRANTE e outras mais. Trocávamos figurinha na disputa de BAFO, e gostávamos de fazer coleção de FLÂMULAS, SELOS e ADESIVOS. Andávamos como loucos de BICICLETA e VELOCÍPEDE de um lado ao outro. Fazíamos campeonato de JOGO DE BOTÃO e vivíamos disputando quem primeiro preenchesse o ÁLBUM DE FIGURINHAS. Por sinal, juntamente com as pipas, eram sempre coladas com grude feito por nós. Adorávamos subir em ÁRVORES e fazer CABANINHA. Nessas cabanas, tínhamos até telefones com linha, ou seja, uma linha bem esticada com uma lata de “mastumate” adaptada em cada extremidade. Parecia que funcionava! Ou seria pela altura de nossas vozes? Só sei que, de uma forma ou outra, conseguíamos nos comunicar!

Interrompíamos a enxurrada da chuva que escorria no canto da calçada (hoje os saquinhos plásticos fazem isso por nós), pra formarmos imensas represas e adorávamos fabricar PARAQUEDAS de plástico para serem lançados ao alto com aqueles indiozinhos ou soldadinhos que vinham nas embalagens de Toddy. Fazíamos PERNA DE PAU de bambu, e adorávamos ficar de tocaia esperando o caminhão de cana que, quase diariamente, passava em nossa rua com destino à usina de Roça Grande. Corríamos atrás dele e, enquanto alguns tentavam perigosamente pegar uma “bêra”, outros gritavam pedindo cana. 

Também andávamos como gatos nos telhados, fumávamos talos de chuchu (coisa que não aconselho) e fazíamos cata-ventos e barquinhos de papel para jogar no córrego. Éramos supercriativos, principalmente quando fincávamos um pauzinho no bumbum das tanajuras pra brincar de ventilador, ou esfregávamos vagalumes na camisa pra desenhar. Isso pra não falar das incríveis construções de castelos, autoestradas e imensos túneis nos montes de areia. Falando em tanajura, há muito que não as vejo, juntamente com joaninhas e colós. Besouros e vagalumes também!
Ah... Lembrei-me agora: alguém se recorda de como fazíamos panelinha de xixi na areia?

Muito comum terminarmos aquelas noites de brincadeiras, sentados na calçada, debaixo de alguma luz fraca de um poste qualquer. Ali, depois de vários casos de assombração, era comum quando algum de nós tinha que ser levadosaté a porta de casa, de tanto medo da Maria Quitéria ou da Mula sem Cabeça.

Enfim, essa nossa geração praticou ao ar livre, sem que percebesse, verdadeiras lições (práticas e teóricas) de psicomotricidade. Foram brinquedos e brincadeiras que nos deixaram o abençoado legado da coordenação motora, criatividade, percepção, agilidade, ritmo, noção de tempo e, principalmente, afetividade.


Aprendemos a descobrir o mundo através de nosso corpo, pois o VIRTUAL, para nós, simplesmente, era uma mera e desconhecida palavra escondida nos dicionários.

Crônica: Serjão Missiaggia
Foto     : Matheus Missiaggia 

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, Eluza. Bom parar para lembrar que fomos crianças um dia.

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  2. Maria das Graças F. Ribeiro2 de novembro de 2016 18:02

    Espetacular, Serjão Missiaggia!
    Que viagem! Visitei cada cantinho através de sua crônica.
    De tudo, a única coisa que não vivenciei foi o desenho com vagalume. rs*
    Esse é novidade para mim.
    É muito bom reviver tudo isso.
    Muito obrigada. Adorei.

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    1. Fica então a dica, Maria das Graças. Tente o desenho com vagalumes! É neon vivo.

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  3. Muito legal Serjão, me fez lembrar as inúmeras brincadeiras que fazíamos, em condições geográficas diferentes, mas de um jeito bem parecido, lá no meu saudoso JUJUBA, onde havia uma imensa moita de bambu, que percorria toda extensão da rua na qual brincávamos de "pique esconde", o mesmo córrego, onde caçávamos rã e bagre, a rua sem calçamento por onde fazíamos comboio de carrinhos de "rolimã", uma verdadeira aventura entre tantas outras!!! Saudades, muitas saudades...

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    1. Obrigado,João Bosco, você tem razão: felicidade não tem endereço; ocorre onde há quem queira brincar e se divertir, não necessariamente porque éramos crianças.

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