quarta-feira, 26 de março de 2014

ESSA EU VI!


Dia desses, um simpático e não menos assustado senhor, aparentando algo em torno de seus entas e poucos anos, ao adentrar sorrateiramente com sua pequena bengala na mesma locadora em que eu estava e se posicionar bem ao meu lado no balcão, ficou aguardando ser atendido.

De orelhas apimentadas, semblante tenso e suor escorrendo em quantidade pela testa, parecia carregar sobre os ombros uma generosa sensação de vergonha ou sentimento de culpa.

Já um tanto ressabiado, principalmente pela incômoda sensação de demora devido ao grande número de pessoas que se encontrava no local, olhando cabisbaixo para um lado e para o outro, dirigiu-se para os fundos da loja e começou a vasculhar aquela infinidade de filmes expostos nas prateleiras.

Numa busca incessante por inexistentes raridades infantis, bíblicas e ecológicas, após algumas negativas do funcionário em razão de não estar localizando ou mesmo por não conhecer nenhuma delas, deixou repousar a boina sobre os olhos e, um tanto ofegante, sussurrou baixinho:
- Traga-me então, um daqueles mais apimentados!
- Tem preferência, meu senhor?
- O primeiro que você pegar, e o mais rápido que puder! - de imediato respondeu.

A seguir, pisando como uma pluma, se é que podemos dizer que pluma anda, e sem mexer um único músculo do pescoço, lá se foi nosso enigmático romântico e quase centenário sedutor virando a esquina , ou seja, da mesma forma discreta que surgiu simplesmente, desapareceu.

Achei apenas bem mais eufórico do que quando chegou.

Crônica: Serjão Missiaggia (jan. 2006).

2 comentários:

  1. Danadinho este senhor!
    É de uma geração que até a libido tem classe!

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    1. E esse é um tema histórico sobre o qual pouco se estudou, Sylvio: a liberação dos filmes proibidos. Para quem teve que assistir Laranja Mecânica, do Kubrick, com umas bolinhas pretas como tapa-sexo, essa abertura (literal) foi um fenômeno político-cultural.

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BRIGADU, GENTE!

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