quinta-feira, 21 de abril de 2011

A PÁSCOA NOSSA DE CADA DIA

Arte digital de Michael Vincent Manalo

A caminho da escola, meu filho resolve me dar algumas lições sobre a páscoa. Já não me espanto; afinal, no primeiro ano do ensino fundamental, ele está tendo aulas de Filosofia. “Pai”, diz ele, “esse negócio de páscoa não é só ovo e coelhinho não: páscoa é pra comemorar a ressurreição de Jesus, ele morreu e voltou, sabe?”
Explico que morrer faz parte do processo da vida pois, para vivermos plenamente no presente, é preciso morrer para o passado, e cito o exemplo daquele bebê que ele era, digo que ele morreu para que pudesse surgir esse rapaz (ele só admite, aos cinco anos, ser chamado de “rapaz”) inteligente, bonito e mestre do videogame.
Infelizmente, nossa discussão é interrompida pelo Coelhinho da Páscoa que está, naquele momento, visitando a escola e, eventualmente, fazendo propaganda de um shopping da cidade.
Na volta para casa, fiquei imaginando sobre o tanto de energia e afeto que é gasto sobre este tema da morte. Sempre uma coisa ao lado da outra: a morte e o ser com medo de encontrá-la. Ela, sempre presente, e a pessoa tentando esquecê-la, adiá-la, negá-la ou até mesmo suavizá-la. Quantas esperanças e quantas teorias: uns acreditam na reencarnação, outros na ressurreição. Há quem fale em espírito, alma e até mesmo recorra àquele ser supremo que vive fora do tempo e recebe muitos nomes, e é invocado em diferentes templos.
Na prática, entretanto, pouca gente – se houve – foi capaz de encarar uma alma, ou um espírito desencarnado, apto a esclarecer os mistérios do pós-morte. Muita coisa foi escrita, é verdade, mas são idéias, conceitos, que são transmitidos e, que para ter validade, demandam fé. O fato é que, como qualquer idéia que passa pela nossa cabeça, também estas teorias não são permanentes. Aliás, nada que passa pelo campo da mente, é definitivo.
Aí eu fico pensando: estamos entrando, e de forma rápida, no século XXI a fora, e passamos uma enorme parte da nossa vida nos preocupando com o desconhecido. Morte é uma palavra, que evoca medo de perda, medo de dissolução. Mas, como ninguém pode, de forma objetiva, dizer nada a respeito da tal experiência, ela permanece assim, desconhecida. E, da mesma forma, que ensinamos às nossas crianças a não ter medo do desconhecido, não faz sentido passar a vida, ou perder o precioso tempo da vida, inventando desculpas, criando expectativas, elaborando teorias salvacionistas.
E o pior é que, enquanto nos ocupamos do desconhecido, negligenciamos, ou não sobra tempo mesmo, para o conhecido: sobre como viver nossas vidas. Como vivê-la de forma leve, bela e útil. E, por não saber viver a vida de forma apropriada, temos tanto medo da morte. Parece que a questão não é saber se há vida após a morte, mas sim antes.
Quando tentei explicar ao meu filho sobre o processo de morte e renascimento, o que eu quis dizer é que a vida não pode ser exercida ao mesmo tempo em que nos ocupamos com os arrependimentos do passado, ou com a fantasia do futuro. Se não vivemos o presente, podem crer que já estamos mortos. Porque, para acompanhar o movimento da vida, é preciso morrer para a memória. E, quando morremos para as lembranças, mesmo as boas, somos, de novo, meninos, com toda a purificação e toda a inocência que esta transformação traz.
Vejam, não estou falando em negação, mas em esvaziamento da mente, em eliminar a preocupação com uma realidade inevitável, e em ressuscitar todo dia, ao acordar, sabendo que a tal páscoa é a passagem. Uma passagem de ida, uma passagem ao ato, um passe livre para a saborosa aventura de viver.

(Crônica: Jorge Marin)

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