sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DOUTOR BICHEIRÓLOGO



Na semana passada, aposto que vocês se lembram do sonho trazido por um apostador ao “gabinete” zoológico: um defunto empurrava o próprio caixão. Da forma como os aposentados são tratados no Brasil, pode até ser uma profecia, quem sabe?
Mas, o bicheirólogo permanecia calmo, e em absoluto silêncio. E agora, explica essa, Froide! Quero ver como ele sai dessa... pensava eu!
Por coincidência, neste dia, o movimento estava bem grande. Um carro, que havia derrubado uma árvore na esquina dos correios, fez, naquele dia, dezenas de pessoas, ao mesmo tempo, se dirigirem à banca. Sabem como é... a placa do tal veiculo prometia muito!!!!
Mas, voltando ao sonho do senhor Jeremias, confesso nunca ter visto o “doutor” suar tanto. Escorria na testa, em grande quantidade...
Ante uma pausa, para o Dr. Froide vender algumas balas, aproveitei a oportunidade e fui rapidinho fechar a porta da oficina. Já havia passado das seis horas. Voltei mais que depressa, pois jamais sairia dali, sem escutar o final da história.
Pior foi quando foi acrescentado à narrativa, a informação de que um bicho chifrudo, com tromba de elefante, havia também empurrado o caixão, bem em frente à porta do cemitério?
Silêncio geral!!! Olhares interpretativos no ar!
Nesta hora, Froide coçou a cabeça, consultou alguns livros, enxugou pingos de suor na testa e fez algumas anotações. A seguir, dando uma leve acomodada no banquinho, coçou novamente a testa, e continuou sua minuciosa análise, sempre procurando manter as aparências. Parecia sempre muito sereno e não deixava cair sua peteca. Muito menos a pose.
Menos mal, pensei. Parece que logo-logo achará o fio da meada e, em breve, sairá a tão esperada receita... digo: palpite!
Mas, para complicar mais ainda a já complicada análise, o tal Jeremias lembrou-se de que o referido animal ainda era listrado. E, ainda mais terrível, de vermelho e preto. Seria um flamenguista incubado? Se o fato tivesse acontecido hoje, poderia ser uma alusão ao Léo Moura. Mas, e a tromba? Melhor nem perguntar!
- Aí também não, Sr Jeremias! O senhor tá querendo é me confundir! - retrucou, discretamente, o compenetrado Dr. Froide, após fazer algumas anotações e dar outra olhadinha num pedaço de livro velho, que estava na prateleira.
- Sonhando colorido, hein Sr Jeremias?... Pode ser pavão na cabeça!... - resmungou o próximo da fila!
- Que nada! Esta confusão tá me cheirando Camelo com Porco!... - falou um outro entendido, que estava sentado no banco ao lado.
- Nada haver! - rebateu Froide. Não vamos nos precipitar!
Enquanto isso, uma senhora, que havia narrado, dias antes, ter sonhado com um urubu branco, já meio impaciente com a demora, fez a seguinte sugestão: pediu que, face às inúmeras dúvidas, o Sr. Jeremias fosse pra casa, sonhasse novamente e voltasse com a coisa mais detalhada. (Pode um negócio desse?)
Foi aí que meu amigo Froide, após pendurar o lápis na orelha e dar outra ajeitada no banquinho, começou a soltar o seu tão esperado veredicto.
Ante um silêncio funesto, e para decepção de todos, disse que tudo aquilo, simplesmente, prenunciava Urso na cabeça. A dezena, eu indico 91, a centena 691 e a milhar 4691. Òóóóóóóó!!!!!!!
- Pipocou´, né Doutor?... Tem muito mais coisa aí! - gritou um paciente, digo... freguês que, por sinal, estava sentado na beirada do canteiro, esperando por sua vez.
Foi neste momento, que Reimundo, após se levantar, começou a dar sua científica justificativa:
- Desculpem-me, pessoal! Mas... Nenhum ser mortal conseguiria passar para o papel tal interpretação!... Muito menos eu!... Que venha o próximo! (Decepção geral)

Numa outra vez, quase que derrubaram a barraca do bicheirólogo.
Foi assim: um sujeito parrudo, um tanto ignorante, narrou ter sonhado que estava num lago, que este lago era raso e que havia três peixes no seu interior.
O paciente, digo, o apostador, continuou contando que, em seu sonho, ele se encontrava dentro do referido lago, e que ficava a bater com um pedaço de pau, brutalmente, naqueles peixes. De repente, um dos peixes saiu da água em forma de mulher. O sujeito tentava, então, de todas as formas abraçá-la, mas era impossível, pois a “sereia” escorregava e fugia a todo instante de seu corpo.
Foi nesta hora que quase se estrepou o pobre Froide. Na sua infeliz conclusão, diagnosticou que daria Jacaré e Veado, na cabeça.
- Tudo bem, Doutor! - disse o brutamontes, já meio ressabiado. Peixe pra jacaré tem sentido, mas... de onde surgiu esse veado????
Froide congelou. Já ouvimos muitas vezes a expressão “quebrar a banca”. Era o que estava para acontecer. Só que, aqui, de uma forma consciente e concreta.
NÃO PERCAM, na próxima semana, o final desta empolgante narrativa: como se sairá o notável Dr. Froide, ameaçado na cabeça, e cercado do primeiro ao quinto, pelos oito, e, quem sabe, até pelos doze?

(Crônica: Serjão Missiaggia / Adaptação: Jorge Marin)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

AOS MESTRES, COM CARINHO



Caminhando pelas ruas vazias de Juiz de Fora, passo em frente a um telão, onde são transmitidas imagens do cenário nacional: o candidato à Presidência da República José Serra beija a imagem de Nossa Senhora Aparecida, enquanto Dilma Roussef abraça e beija um grupo de criancinhas em Brasília. Tudo isto me causa um certo mal-estar, mas percebo que política é mesmo um assunto para quem tem estômago forte.
Nossa Senhora Aparecida me lembra meu primeiro dia de aula no Ginásio do Sô Bi, quando fui abordado por uma senhora, de cabelos brancos, que me entregou uma pequena imagem daquela santa, e disse para mantê-la durante minha vida escolar, para que eu tivesse sucesso. Posso dizer, com certeza, que a santa foi uma das responsáveis pelo meu sucesso escolar. Mas, intercedendo aqui na Terra, não posso esquecer jamais as professoras, e os professores, que me conduziram no processo de aprendizagem.
É curioso que, muitas vezes, adolescentes, ríamos quando nos falavam da importância das professoras, principalmente das primárias. Hoje, no entanto, passados quase cinquenta anos do momento em que entrei, pela primeira vez, no Grupo Escolar Dona Judite Mendonça, digito aqui, como se estivesse preenchendo a minha antiga ficha escolar, o nome Renée Henriques Cruz, minha primeira professora.
Enérgica, ensinava, com segurança, uma turma de marmanjos, na qual fui parar por ter iniciado minha vida escolar diretamente no segundo ano. Com o passar do tempo, fui, com as primeiras avaliações, transferido para a classe de Dona Maria Ângela Ayupe Rezende Itaborahy (êta nome difícil de escrever pela primeira vez!).
Fiquei triste, porque Dona Renê tinha uma personalidade muito parecida com a minha mãe, o que me fazia sentir em casa. Mas, por outro lado, o contato com Dona Maria Ângela era uma experiência fascinante: primeiro, porque ela era muito bonita e muito chique; depois, porque alguns vizinhos eram da mesma turma. Dona Maria Ângela era um protótipo das mulheres atuais: ativa, independente, moderna e inteligente. E, para nossa sorte, foi também nossa professora no terceiro ano.
No quarto ano, Dona Maria Martha Pereira Camilo era uma mistura das minhas duas primeiras professoras: combinava disciplina com perfeição. Isto é, cobrava-nos trabalhos bem feitos e limpos e, ao mesmo tempo, hoje vejo que para nosso bem, uma postura ética e atitudes corretas.
No Ginásio do Sr. Ubi, tive a felicidade e a ventura (ou graça daquela Nossa Senhora Aparecida?), de ter mestres fantásticos. Primeiramente, a genialidade de Maria da Glória de Lima Torres, a Dona Glorinha, que, além de ser a responsável pela correção dos meus textos, foi minha primeira diretora de teatro. Outra personalidade inesquecível era a Dona Rizza Lamah, inteligentíssima, irônica e elétrica, deixava-nos atordoados com sua energia e rapidez de raciocínio.
Se Dona Rizza era pilhada, a paz e a calma vinham com Dona Cinila Valente dos Reis, que transformava a aula de Português num exercício estético, pois primava pela boa apresentação dos trabalhos e, coisa inexistente hoje, pelo discurso correto. Ainda no Ginásio, recordo, com admiração, do Professor Biel que, jovem ainda, nos deixou para lecionar Inglês no céu, e da inesquecível Dona Yveta que, com suas terríveis arguições, conseguia, a um só tempo, nos introduzir à ansiedade e à História do Brasil e do Mundo.
Naturalmente, tivemos também excelentes professores no Segundo Grau, mas é interessante como a lembrança dos mestres do ensino fundamental continua vívida em nossos corações e mentes.
Finalmente, de uma forma especial, a lembrança do nosso saudoso Ubi Barroso Silva, misto de professor, diretor, pai, educador e exemplo de vida. Como era o sentimento dominante naqueles “anos de chumbo”, confesso que sentíamos medo do Sôbi. Mas, estranhamente, era um medo bom: não era o medo de uma pessoa que poderia nos fazer mal, mas, pelo contrário, era o medo de ultrapassar um limite que não conhecíamos bem, mas o Sôbi conhecia. Ele sempre nos dizia que não “achava” nada (porque, segundo ele, “tinha um amigo que achou e não acharam mais ele”). E não achava mesmo, ele tinha certeza do caminho melhor, e da forma mais branda de nos transformar em cidadãos.
E cá estamos, cidadãos de um mundo globalizado, bombardeados pela torrente de informações que nos chegam a cada minuto. Cibernéticos, internautas, blogueiros, twitteiros, mas, sempre e sempre, eternamente gratos a estas pessoas. Como bem dizia a imortal Cora Coralina: “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

(Crônica: Jorge Marin)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DOUTOR BICHEIRÓLOGO



Capítulo 1 - Froide explica

Desculpe-me pela falta de criatividade e conhecimento, mas, ao escolher o nome desta equivocada croniqueta, mais confuso fiquei.
Talvez Bicheiroatria ficasse melhor! Ou quem sabe Bicheiroquiatria? Também, Bicheiriatra não ficaria mal! E Bicheirólogo?! Até que seria bem sugestivo!
Enfim... Dito, pelo não dito deixarei mesmo: “DOUTOR BICHEIRÓLOGO”.
Para ser sincero, por esta eu não esperava, e muito menos tinha conhecimento, mas confesso que já estava há um bom tempo, atentamente, observando esta nova profissão.
Sabem como é: possivelmente mais um daqueles trabalhos emergentes e informais, que vão surgindo com as crises.
E o Froide nem pra me contar!
Froide é o nome real do meu amigo. E quem pensa que é em homenagem ao psicanalista, está totalmente enganado, pois, segundo ele, seus pais queriam mesmo é homenagear o Pinque Froide, o conjunto, lembram? Grande figura que, por um longo tempo, foi proprietário de um estabelecimento comercial, que ficava próximo à minha oficina.
Bem que eu achava meio estranho quando, vez ou outra, ele ficava, lá da barraca, a gritar, para algumas pessoas, convocando-as a fazer uma Aplicação nos Irracionais. Também muito me estranhava, quando o chamavam de CORRETOR ZOOLÓGICO.
Gente muito boa. Só não sabia ter ele, doutorado em: “Interpretações, diagnósticos das probabilidades da sorte ou azar”.
Se eu não tivesse visto, ou escutado com os próprios olhos e ouvidos, que a terra, um dia, há de comer... jamais acreditaria.
Tudo teria começado numa das inúmeras vezes em que dava uma fugidinha da oficina, para ir até sua barraquinha. Por sinal, uma agradável rotina, que eu usava sempre, com o intuito de descansar e jogar conversa fora.
Foi, exatamente, numa dessas vezes, que eu tive a grata oportunidade de presenciar tais fatos.
Um deles, foi quando um tal de Senhor Jeremias, ao aparecer na banca, aproximou-se devagar e, após passar por uma pequena fila, iniciou uma espécie de consulta com o Dr. Froide.
Este senhor, que havia esperado, calmamente, por sua vez, começou a narrar o seu problema, ou melhor... o sonho que havia tido na noite anterior.
Dr. Froide, com muita elegância e sutileza, após ajeitar-se no banquinho e colocar as mãos sobre o queixo, começou, atentamente, a escutar o estranho sonho do tal Jeremias.
Enquanto eu, fingindo certa alienação, procurava não perder um só detalhe da consulta.
Para ser sincero, este sonho parecia mais com um roteiro de bêbado. Para mim, uma misturada de desejos reprimidos, que somente um verdadeiro Froide, ainda que pink, seria capaz de interpretar.
Enquanto isso, uma pequena fila, cada vez mais, ia aumentando de tamanho, e já se podia observar que, começavam a se juntar, do lado da barraca, alguns espertinhos que, indiscretamente, ficavam também de ouvido em pé, para beliscar uma fatia do possível diagnóstico que logo viria. (Froide era respeitadíssimo nesta área!). ”Um quase profeta”, diziam.
Eu, como não poderia deixar de ser, de “oreia” ainda mais em pé, procurava incessantemente, não perder um só detalhe.
O conteúdo daquele monte de informações descabidas cada vez mais me fascinava.
Mas... Comecei sentir na fisionomia do bicheirólogo, que a consulta parecia estar meio fora de controle.
Isto se deu principalmente quando foi narrado que, no tal sonho, o falecido empurrava seu próprio caixão.
O que dirá o Dr. Froide sobre esta curiosa ocorrência? Sorte? Azar? Qual será o grupo? E a dezena, centena e milhar?
NÃO PERCAM, na próxima semana, este palpite, a tempo ainda de jogar na Corujinha!

(Crônica – Serjão Missiaggia / Adaptação – Jorge Marin)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

SEGUNDO TURNO: A REVOLTA DOS PALHAÇOS

(Brincadeira distribuída na Internet)

Quem leu o post da semana passada, e não acreditava que o palhaço ia chegar lá, quebrou a cara: o nobre Tiririca (agora a gente pode até falar o nome) superou a marca de 1.350.000 votos. Fenômeno só igualado anteriormente pelo famoso Enéias Carneiro (“meu nome é Eneias!”). Agora, como já era esperado, estão requerendo um teste para ver se o candidato eleito é ou não analfabeto. E eu fico pensando: como será este teste? Uma provinha de português? A tabuada de 8?
Se a prova a ser aplicada no Tiririca for minimamente difícil, periga que muitos dos parlamentares atualmente no poder, sejam reprovados, mesmo com os seus “diplomas” de curso superior. Segundo o dramaturgo austríaco Karl Kraus, que morreu em 1936, “o segredo do demagogo é se fazer passar por tão estúpido quanto sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.” Bem atual, não?
A corrida para o segundo turno já começou, e quem pensa que as palhaçadas já acabaram, continua errando, pois algumas manchetes já dão o tom do debate. Segundo vários veículos de comunicação, o PT descobriu que sua candidata foi mal nas eleições, entre outras coisas, por se declarar favorável a uma possível descriminalização do aborto no país. Resultado: Dilma vai se reposicionar e passar a fazer uma defesa ostensiva da vida.
Ou seja, a coisa funciona assim: um bando de gente ligado à candidatura Serra coleta declarações da petista afirmando ser favorável à legalização do aborto; depois junta tudo isto e distribui na Internet, nas mídias comprometidas com o tucanato (que são muitas) e, finalmente, nas igrejas cristãs. Depois disso, começa a caça às bruxas: as igrejas, até mesmo para esconder um pouco suas próprias mazelas internas, que todos conhecemos bem, iniciam uma cruzada contra a imoralidade, da mesma forma que condenam a pílula e os preservativos até hoje.
Mas uma coisa não é levada em consideração: há um contingente meio oculto, entre 729 mil a 1,25 milhão de mulheres que se submetem aqui no Brasil, anualmente, ao procedimento dito pecaminoso. Como a totalidade destes abortos são clandestinos, mais de duas centenas destas mulheres morre.
Eu fico pensando comigo uma questão, que deveria também incomodar aos coordenadores de campanha: será que estas mulheres que se submeteram à interrupção da gravidez votaria num candidato que prometesse a legalização do procedimento, ou, sei lá, até por culpa, votaria em quem continuasse a tapar o sol com a peneira, e fingir que o aborto não existe no país?
Faço esta pergunta, já que é a única que interessa aos políticos, pois o cerne da questão, que é a saúde pública, permanece intocado, como se as mulheres que decidiram interromper a gravidez merecessem, de fato, morrer. Justiça seja feita: a candidata Dilma Roussef declarou à revista Isto É que considera injusto “deixar para a população de baixa renda os métodos terríveis, como aquelas agulhas de tricô compridas, o uso de chás absurdos, enquanto as mulheres de renda mais alta recorrem a clínicas privadas para fazer.”
Acho tudo isto muito triste: agora, que a corrida presidencial chega na reta final, um assunto que envolve um grande conflito ético e moral passa a ser tratado como moeda de troca, ou seja, eu dou a vocês, religiosos, a certeza da condenação, e da danação, para aquelas milhares de mulheres imorais, e VOCÊS ME GARANTEM O VOTO DO SEU REBANHO!
Meu Deus, será que somos nós aqueles palhaços que criticamos?
Entendo que esta questão dolorosa, principalmente para as mulheres, deva ser encarada, discutida e decidida pela sociedade. Com calma, serenidade e objetividade. Sem falso moralismo e, principalmente, com a certeza que Deus é o tipo de pai que, se o filho, ou filha, lhe pedir uma peixe, jamais lhe dará uma cobra, ainda que este filho, ou filha, esteja em pecado.

(Crônica – Jorge Marin)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CAPELINHA DO SANTO ANTÔNIO



Na semana passada, falamos do Antônio, que falava português e foi virar santo na Itália, e hoje vamos falar de um bando de italianos, que vieram falar português aqui no Brasil.

Por isso, ainda antes de começar a falar sobre a capelinha, gostaria de passar para vocês, um pequeno histórico da família Missiaggia. Com certeza, será importante para continuarmos.
A família Missiaggia partiu da Itália, rumo ao Brasil, em 1899.
Chegou ao novo continente minha bisa Giuseppina Cecchetto, então viúva de nosso bisavô Giuseppe Missiaggia.
Com ela, vieram os oitos filhos, entre eles nosso avô Francesco Missiaggia já casado com vó Maddalena, sendo o mais velho dos irmãos, chegando ao Brasil com 26 anos.
Todos os filhos nasceram e partiram do norte da Itália, região de Veneto, província de Vicenza, de uma pequena comune chamada Pozzoleone. Cidadezinha hoje, com mais ou menos 3.000 habitantes.
Vieram todos para São João Nepomuceno e se estabeleceram no povoado dos Henriques.
A seguir, fixando residência na cidade, por muitos anos, vô Chico morou com a família e manteve um grande comércio, num casarão que existia na Rua dos Henriques (Caxangá), num terreno logo depois da oficina Lima Auto Peças onde hoje, se não estou enganado, funciona uma garagem.
Vô Chico era uma pessoa de grande devoção a Santo Antônio, razão pela qual, de sua casa, no Caxangá, dava-se inicio, rumo à capelinha, às procissões do Santo Padroeiro. Além de ter sido ele também, um dos fundadores da igreja.
O pequeno acervo que se encontra no interior da igrejinha (Via Sacra e uma das imagens de Santo Antônio) veio com Vô Chico da Itália, e foram doados após a inauguração. Podemos observar que a Via Sacra está toda ela escrita também em italiano e estão fixadas na parede em pequenas molduras de madeira. As molduras originais tiveram que ser substituídas recentemente, devido aos cupins.
Infelizmente, devido à existência de duas imagens de Santo Antonio, no interior da capela, não saberia precisar quais das duas vieram com meu avô da Itália.
Também guardamos com carinho esta foto, acima (original) da Inauguração da Capela, que foi em 09 de novembro de 1924. Quem sabe até muitas dessas pessoas poderão ser identificadas. Entre elas, encontra-se meu avô Chico e tia Maria Missiaggia.

Para finalizar, diria mais uma vez, que foi a partir do momento em que percebi o quão implacável é o tempo, o qual, com sua incrível rapidez, vai de uma forma ou de outra, silenciosamente, nos afastando da própria historia, que senti o desejo de intervir, tentando passar para gerações futuras, um pouco daquilo que aprendi.
Informações que, para alguns, poderão ser até banais, mas que na realidade, estarão nos ajudando a remontar parte de nossa história.

Assim, com muito orgulho, termino aqui um pequeno dossiê da capelinha do Santo Antônio. Minha intenção principal foi tentar resgatar, de uma maneira simples e objetiva, alguns dados que iriam muito em breve se perder no tempo.

(Foto - Eduardo Ayupe)

Ao resgatar alguns fatos históricos, percebi que, de alguma forma, também contribuí para que, no futuro, nós mesmos não venhamos a passar despercebidos.

(Crônica – Serjão Missiaggia)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ELEIÇÕES 2010: A HORA E A VEZ DOS PALHAÇOS



Calma, gente! Quando digo “palhaços”, não estou querendo falar de nós, eleitores. Acredito que tal comparação seria extremamente injusta... para os palhaços! O fato é que, mais uma vez, somos chamados a eleger os nossos governantes, e a mídia está se debatendo com o dilema da candidatura de um palhaço semianalfabeto. Há também uma candidata brotada na rica fauna das mulheres-fruta, também iletrada.
Ora, será que a questão aqui é a profissão dos postulantes? Ou será que é a escolaridade? Não acredito em nenhuma das duas hipóteses. Afinal, o nosso atual presidente é retratado pela imprensa como um homem de poucas letras e, no entanto, atingiu um nível de expressão internacional que nenhum político brasileiro teve antes. E também não acredito que o motivo das restrições seja a profissão, pois não vejo nada indigno na profissão de palhaço, nem de fruta. Então, o que seria?
Sabemos que a política é um jogo de interesses fantásticos e, portanto, se o tal palhaço conseguir a votação que dele é esperada, vai levar junto com ele, via legenda, uns quatro ou cinco deputados de um obscuro partido político. Então, a questão não é a bagagem cultural do palhaço (não vou nem falar da bagagem da mulher-fruta): a questão é que interesses maiores, leia-se aí interesses dos megapartidos, estariam sendo contrariados.
Pois a política se transformou nisto, num continuísmo irritante, num tedioso jogo de cartas marcadas. Em cada cidade que analisamos os candidatos, o que descobrimos? É o Doutor Fulano, ou o Filho do Doutor Fulano, ou o Empresário Tal, ou o Sindicalista Tal. E todos, mas todos mesmo, tentando a re-re-re-re-reeleição. Porque, na verdade, o político é isso mesmo: um político, nada mais. Ou alguém aí pensa que o Lula é torneiro mecânico, ou que o José Serra é médico? Eles podem, quando muito, ter exercido estas profissões, enquanto suas carreiras políticas não decolavam. Ou seja, eles são tão empregados, quanto o Renato Aragão é advogado. Vejam só, de novo, o palhaço!
Eu, a princípio, não vejo nada errado nisto. Em nossos ambientes de trabalho, há pessoas com foco no trabalho, outras com foco nos clientes, e outras com o foco na política, seja a política interna da empresa (eram chamados de puxa-sacos, e hoje de divulgadores do marketing pessoal) ou então a política mais geral. Muita gente, acusa estes políticos de vagabundos (assim como FHC chamou os aposentados), mas eu, por exemplo, que tenho a maior preguiça da militância política, acho que nós precisamos deste tipo de pessoa para fazer as leis e defender nossos interesses no cenário nacional.
Assim como não tenho a menor vontade, nem disposição, para sair por aí fazendo discurso, levantando bandeiras, e fazendo conchavos com meus inimigos, eu me limito a votar. Votar, dirão uns, “mas eu prefiro anular meu voto.” E aí eu não concordo, primeiro porque acho que um adulto anular seu voto é mais ou menos como a gente fazia na escola quando, no dia sete de setembro, inventávamos uma dor de garganta, só para não ir marchar no desfile.
Acho que temos que votar sim, mas, pelo amor de Deus, não temos que votar seis vezes no mesmo deputado, cinco vezes no mesmo senador, ou quatro vezes no mesmo governador, só porque ele é honesto. Se for só por isto, prefiro votar no flanelinha aqui da rua, porque um dia minha carteira caiu e ele devolveu.
É importante saber o que é que esta gente, que vem se perpetuando no poder, vem fazendo. Há um site, é o www.excelencias.org.br que mostra a vida dos parlamentares, com notícias publicadas na imprensa, ocorrências na Justiça e Tribunais de Contas, matérias legislativas apresentadas, como votou nos projetos importantes, a assiduidade, o uso de verbas e outras informações relevantes. Sei que vai dar algum trabalho, mas, às vezes, descobrimos que aquele parlamentar, que está pleiteando seu sexto mandato, votou em projetos contrários a mim (que sou aposentado), além de estar sendo processado e acionado pela Fazenda Pública, e de ter apresentado apenas dois projetos, nos vinte anos em que esteve na Câmara dos Deputados, onde teve um indício de ausências de 30% das sessões.
É claro que podemos continuar anulando os votos, ou votando “nos mesmos de sempre”, mas se assim o fizermos, corremos o risco de ser chamados a concorrer a um cargo na próxima eleição, seja na condição de palhaço, ou iletrado. Fruta, não!

(Crônica; Jorge Marin)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CAPELINHA DO SANTO ANTÔNIO



Enquanto, do terreiro de minha casa, ficava a escutar o foguetório vindo da igrejinha do Santo Antonio, fiquei pensando:
- Poxa! Já faz um bom tempo, que não dou uma chegadinha lá em cima pra fazer uma visita à capelinha!
Não sei quantos de vocês, sanjoanenses, devido à distância, já tiveram o privilégio de conhecer o local, mas, para aqueles que ainda não o fizeram, procurem fazer o quanto antes, pois, com certeza, não irão se arrepender. Acho até que muitos poderão até se surpreender.
Mas, antes de começar falar um pouco sobre a capelinha, gostaria primeiramente, de chamar a atenção de vocês para a beleza do lugar: um recanto superacolhedor.
Talvez um dos últimos redutos urbanos da cidade, que ainda nos faz sentir que o tempo não é assim tão rápido, como ultimamente nos parece ser.
E, para todos aqueles que um dia irão se aventurar a subir a colina, vai aí apenas uma dica: quando lá chegarem, procurem, antes de tudo, dar uma breve sentadinha na escada de entrada da igreja. Notarão, de imediato, que uma suave brisa estará à espera de vocês, juntamente com uma paz muito gostosa. Por sinal, ingredientes perfeitos que nos facilitarão também, o encontro com nossa própria paz interior. Confesso achar que existe até certa magia pairando no lugar, pois não há uma única vez em que lá estou, que não me pergunto:
- Será que nunca ninguém pensou, ou mesmo teve a ideia, de se fazer um Mirante neste local? Se aqui existe magia, visual, paz, beleza e historia... Que mais faltaria? Com certeza, ficaria maravilhoso e se tornaria um ponto turístico sem igual. Algo assim como um pequeno recanto ecológico, que se tornaria um lugar perfeito onde famílias inteiras poderiam se divertir ao sabor das pipocas, algodão doce, picolés e tudo mais. Quem sabe até um pequeno parquinho onde, à sombra das árvores, encontrássemos mesinhas para xadrez, damas, umas boas lunetas, além, é claro, de um lugar para saborear aquele refrigerante e fazer um bom lanche.
Um sonho? Enfim o futuro poderá dizer!

Enquanto isso, num passado distante, o fazendeiro Martinho passeava por sua fazenda, juntamente com seu filho, o pequeno Fernando. Incomodava muito ao fazendeiro, a algazarra dos pássaros. Preocupado com a ameaça à colheita deu ordens expressas ao pequeno Fernando, para manter longe os pequenos ladrões.
Correndo e brincando, o garoto continuou brincando naquele local tranquilo, até que, mais adiante, encontrou uma pequena capela. Muito católico, resolveu rezar um pouco, mas logo lhe veio à lembrança, a promessa que fizera ao pai, de enxotar os passarinhos, e, naquele século XIII, não era costume desobedecer ao pai.
Fernando, então, num misto de inocência e altivez, saiu gritando pelo prado, chamando os pássaros, ordenando que o seguissem até uma sala da fazenda. Estranhamente, as aves obedeceram ao garoto, e entraram tranquilamente, pousando por todos os cantos da grande sala. O menino fechou, em seguida, as janelas e as portas, e foi para sua capelinha rezar.
Retornando, o pai ficou preocupado, pois não conseguia achar o filho, até que foi à capelinha, onde encontrou o menino absorto em suas orações. Para surpresa do fazendeiro, os campos estavam em silêncio, sem um único bater de asas, sem um chilreio de pássaros sequer. Fernando tomou o pai pela mão e, levando-o até o salão onde deixara os pássaros, abriu a porta, falou para o pai: “quer ver que coisa bonita?” e, acenando para os pássaros, convidou-os a sair, e estes, como num desfile de cores e sons, voaram por sobre as cabeças dos dois.
Mais tarde esse menino, agora um padre franciscano, vai numa missão suicida, pregar aos sarracenos no Marrocos, mas, chegando neste país, é acometido de grave doença e obrigado a voltar à sua Lisboa natal. No entanto, uma tempestade desvia sua embarcação para o sul da Itália, na Sicília. E, por uma destes caprichos do destino, ou diríamos desígnios de Deus, ali perto, em Assis, seria realizada importante reunião de cinco mil frades. Pois foi nesta reunião, em maio de 1221, que encontraram-se, frente a frente, o líder da ordem, Francisco de Assis, e aquele menino Fernando, agora Padre Antônio. No coração de ambos, uma grande paixão por capelas, e, nas conversas, certamente, muita história de passarinho.

NA PRÓXIMA SEMANA: o final da história sobre como a imagem deste santo, que faleceu nos arredores de Pádua, na Itália, veio parar em São João Nepomuceno, justamente na capelinha que todos conhecemos.

(Crônica: Serjão Missiaggia / Adaptação: Jorge Marin)

BRIGADU, GENTE!

BRIGADU, GENTE!
VOLTEM SEMPRE, ESTAMOS ESPERANDO... NO MURINHO DO ADIL