quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

TEMPOS REMOTOS


Enquanto deitado confortavelmente no velho sofá de minha casa, com um controle remoto nas mãos, fiquei a imaginar como seria hilário se, no tempo daqueles televisores antigos, já existissem os famosos suportes de girovisão. E que dificuldade seria para acessá-las, haja vista que muitos aparelhos, como o que tenho em meu quarto, encontra-se quase no teto. Por sinal, muitos entendidos dizem que essa ociosidade diante da parafernália dos eletrônicos  em muito vem contribuindo com a obesidade. Mas isso é já outro assunto.

Voltando então a lembrar das velhas e românticas televisões a válvula (quase sempre Philco ou Phillips), quem não se lembra do trabalho físico que éramos submetidos para poder controlá-las? Em muitas casas, e na minha não seria diferente, havia até um revezamento pré-combinado para que não cansasse apenas uma só pessoa. Disputar no par ou ímpar era também muito comum entre os membros da família, principalmente para ver quem, naquela noite, seria o contemplado pra levantar menos vezes.

E como éramos pacientes naquela época, não?  Ao ligar a TV, obrigatoriamente, tínhamos que esperar que aquecessem suas válvulas por pelos menos dois a três minutos para que assim começasse a aparecer som e imagem. Naquela época, havia também os que diziam que seria prudente, depois de duas horas de funcionamento ininterrupto, desligar os televisores por, pelo menos, dez minutos, para que, dessa forma, dessem uma boa esfriada em suas válvulas, e não viessem a queimar.

Logo depois de aquecidas, uma primeira levantada do sofá, de imediato, sempre acontecia, e isso se dava em razão da necessidade de se fazer, os primeiros ajustes na sintonia fina. Geralmente, esse procedimento era realizado ao se girar uma daquelas imensas “rodelas” que, quase sempre, vinham sobre o seletor de canais. O negócio era girar pra esquerda, girar pra direita, até que, finalmente melhorasse aquele incômodo chuvisco.
 
Épocas em que a energia elétrica variava muito, fazendo com que as faixas de convergências nos tirassem muitas vezes do sofá, e do sério também! E, para aquelas residências que não possuíam os enormes estabilizadores de energia, é que a coisa ficava ainda mais cansativa. Lá em casa, corrigir o vertical era minha responsabilidade, enquanto o horizontal sempre ficava por conta de minha irmã.

Uma levantadinha básica pra se ajustar o volume sempre acontecia, sendo que quase nunca para se mexer no brilho e contraste. Se um vento forte nos pegasse de surpresa, o negócio era dar uma pequena torcedela no cano externo da antena pra redirecioná-la melhor com a torre. Chuva com relâmpagos então era um deus nos acuda, pois, provavelmente, ficaria tudo fora do ar por pelo menos três dias. Subir naquelas montanhas, num período em que nem estrada existia direito, não era fácil não. Sr João com seu famoso jipe e Sr Tavinho que o digam!

Sorte nossa que, naquele tempo, somente o sinal de dois canais de televisão chegava à cidade, sendo um deles a TV Tupi e outro a TV Rio, mas, mesmo assim, tínhamos obrigatoriamente que nos levantar para girar uma pequena chaveta, que, quase sempre afixada na parede, era usada para inverter as antenas e com isso sintonizar o outro canal.

Ô vida cansativa ver televisão naquele tempo, sô! Pelo menos, tudo isso acontecia em meio expediente, pois, na maioria das casas, os televisores eram ligados somente depois das dezoito horas.

Crônica: Serjão Missiaggia
Foto     : disponível em http://y101radio.com/september-7-a-big-day-in-tv-history/


2 comentários:

  1. Bem me lembro, Serjão, bem me lembro ...
    E assim vai a vida correndo...
    E a sala da casa da Nozinha, lembra-se?

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  2. Lembro dessa rotina que fazia do ato de assistir a TV uma atividade digna de artesão, com requintes de estilo e persistência.
    Que lembrança inexplicavelmente saudosa e legal... em tempos de TV HD 24 horas com mais de 100 canais, sinto saudade desta simplicidade e da disponibilidade de tempo para ver TV desta forma.
    Lembro que quando tinha meus 11 anos, lá pelos idos de 1971, achava o máximo quando estava de férias e assistia TV até a programação sair do ar. Quando isso acontecia me achava já praticamente um adulto, com capacidade para ver até o fim o que a TV podia oferecer.
    A rapidez e excesso de opções de hoje na TV ao mesmo tempo informam e entediam com maior eficiência!

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