Menino em
São João, a arte nos vinha no campo do Mangueira. Pelos circos! Eram muitos e
todos imponentes e barulhentos. Às vezes, distraídos em nosso jogo de crica
(bolinhas de gude), tínhamos que parar para dar passagem a algum elefante.
Boquiabertos, escondíamos atrás das saias de nossas mães e avós.
Apesar daquelas
maravilhas, o circo que mais deixou saudade, ou pelo menos mais histórias foi,
com certeza, o Circo do Risadinha. E não é pelo fato de levar no título, o nome
do palhaço, que, aliás, era o dono do circo. O que marcou a passagem do Circo
do Risadinha em São João foi o fato de a companhia ter ido à falência em nossa
terrinha.
A estreia
do circo foi um sucesso, como geralmente acontecia com os circos montados no
campo do Mangueira. O povo se encantava com as piruetas dos trapezistas; com as
intervenções atrapalhadas do Risadinha e os outros palhaços; com os músculos de
Paulo, o homem forte; com o boneco do ventríloquo Vanderlei e, finalmente, com
o grande teatro, onde todos os participantes do circo representavam peças
tradicionais como “A Vida de Cristo”, “Coração Materno” e até mesmo uma versão
brasileira de “A Quadrilha da Fronteira” cujo título não me recordo.
Mas, como
eu disse, o circo quebrou e, para garantir a subsistência da trupe, foram
obrigados a prolongar indefinidamente as suas apresentações. Para não
apresentar sempre o mesmo espetáculo, criaram novas peças, inverteram a ordem
dos números. O homem forte passou a aceitar desafios de quem pudesse rivalizar
com ele. O boneco do ventríloquo passou a contracenar com os palhaços e algumas
pessoas da cidade começaram a aparecer como figurantes nas peças. Muita gente
aproveitou as roupas que usava na celebração da Sexta-Feira Santa na Matriz para
“trabalhar” no circo.
O
dinheiro foi raleando. A mulher do Risadinha começou a ensinar receitas para as
donas de casa locais. Algumas pessoas traziam mantimentos e doavam para o
pessoal do circo. Paulo, o homem forte, se apaixonou por uma moça lá do Santa
Rita. Vanderlei passou a frequentar o Botequim do Vilela. E teve um menino lá
do São José que começou a aprender trapézio.
O campo
do Mangueira parecia um centro de visitação. Nós, meninos, fomos autorizados a
assistir o ensaio da menina que andava no arame. Na verdade, éramos todos
apaixonados por ela. A moça do Santa Rita ficou noiva do Paulo. Algumas
artistas atravessavam a ponte pra pedir açúcar e gelo na casa do Arlindo.
Moleques do circo catavam manga no terreiro do sr. João Monteiro.
Até que um
dia o Risadinha vendeu a lona e a caravana partiu. A moça do Santa Rita foi
junto.
Será que,
nos dias de hoje, o Risadinha faria sucesso? Quem sabe, como deputado federal?
Mas, o mais provável é que fosse apenas mais um eleitor. Como nós.
Crônica:
Jorge Marin
Foto : disponível em http://cncariri.com.br/o-circo-chegou/
Muito bacana o texto amei, parabéns!
ResponderExcluirMeu nome
ResponderExcluirTia Lita