sexta-feira, 9 de setembro de 2016

ARREMEDANDO O FILHO DO SEU FULÔ


Meu pai era homem observante, matreiro, escutador de ordens superiores; e sido desse modo desde São José dos Cabritos, na roça de camisolão ou pelado pelos matos, segundo pareceres judiciosos de assistentes, quando especulei das lidas lá dele.

Do que me lembro até agorinha, ele não tinha parecença assim de mais iletrado nem mais vexado do que os outros pais, visitas de vez em quando, congregados marianos em sua maioria. Só assuntava. Minha mãe era quem prescrevia, e espinafrava nos remoinhos das doideiras nossas de moleques – meu irmão e mais eu.

Pai não desconcordava, mas guardava atrás dos lampejos das vistas cansadas da fiação, um risco de lembrança que resplandecia, e era um vislumbre mesmo alumiado, coisa de gente que vê, caboclos ou vaticinadores ainda não de todo exercitados nas artes.

Via um cinema debaixo da testa. Não que fosse conhecedor dessas maravilhas, o máximo que percorria era a porta onde nos levava depois da missa. Namorar os cartazes. Dizia que as línguas estranhas não lhe cabiam. Minha mãe experimentava que não era isso. Ele nem não sabia e nem enxergava muito bem as palavrinhas, os deseinzin dizia ele. Mas ria, não se amofinava na modernice dos tempos. Assistia o Repórter Esso e nisso mestrou-se de dar palpite em notícias de lugares inventados, achava ele.

Dizer o que ele via não posso jamais. Sei que eram coisas que ele fazia no que hoje chamam Ituí, mas era dentro do rio. Uma vez revelou, reservado pra não nos fornecer ideias, sobre umas cabaças que punha na cintura. Pra nadar, mas quase que as embiras arrebentadas levaram ele e o irmão mais novo lá pro lado de lá, sem volta. Não contava onde, eu que mais sabido adivinhava quando mãe lia a Bíblia inteira, modo de falar, pra nós meninos, criminados.

No domingo depois de quando fui pra escola, mãe ficou asmática com meu irmão novo, e fomos só eu e pai cumprir obrigações de Missa, eu ainda no catecismo não podia manducar o corpo do Nosso Senhor Jesus Cristo. Pai me levava junto na fila, mãos agrestes, e eu só mirava as benzeções. Padre Trajano era cego.

Corolário de teimosias minhas que queria porque queria, pai aprovou que fôssemos apressurados no cinema. E eu ainda queria uma brevidade que vendia na Padaria do Popó. Fomos, meu pai açodado, suava dentro da camisa bem passada. Azul céu, fumava meio escondido cigarro Continental.

Na porta do Cine Brasil, meu pai meio vergonhoso da fumaça pra não me sufocar, ficou só apreciando meus interesses pelos cartazes. Até que aconteceu, não sei como foi, de eu intentar, e desvendar de ler: “Marcelino”. Meu pai, que não tinha esses costumes de aproximações corporais, jogou o cigarro fora, agachou, me abraçou. Chorou. Não vi, mas senti os soluços. Era dia 23 de fevereiro de 1964.

Crônica: Jorge Marin, imitando Guimarães Rosa
Foto     : Roberto Capri, do livro “Minas Gerais e seus Municípios”, de 1916

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

QUARENTA ANOS DO NOSSO CONTATO (QUASE) IMEDIATO COM UM OBJETO VOADOR NÃO IDENTIFICADO - FINAL


(continuação)
E para o campo de aviação seguimos novamente, decididos a bater de frente com os hominhos verdes. Era tudo ou NASA, digo nada! 

Tivemos que fazer três ou mais tentativas para subir com todo aquele peso o morro da antiga zona. A Vemaguet, gemendo a cada tentativa, deixava para trás um imenso rastro de fumaça e um insuportável cheiro de óleo queimado. Mesmo assim, no intuito de aliviar o peso, ninguém no meio daquela parafernália se aventurava a descer, receando, talvez, ser DEIXADO PARA TRÁS.

Após algumas tentativas, conseguimos enfim, e mais uma vez, chegar ao campo de aviação. Enquanto aquela coisa permanecia ainda no mesmo lugar, parecendo sempre a nos desafiar, após uma primeira observação com o auxilio de uma pequena luneta, começamos a traçar o plano de abordagem. Foi naquela hora que o mestre astrônomo, bastante surpreso e assustado com aquela visão, começara a encarar a coisa com mais seriedade. 

De imediato, pedindo a palavra, foi logo dando algumas recomendações táticas. Coisas do tipo “se acaso OVNI se mexer, procurar manter a calma e, se possível, ninguém correr”. A seguir, ordenou para que os mais jovens fossem caminhando fora do carro, ou melhor, andando silenciosamente atrás dele. Na Vemaguet, seguiriam somente ele e o motorista que, por sinal, para a infelicidade sua, era o mais desconfiado de todos. E lá fomos nós, caminhando lentamente, passo a passo, AO ENCONTRO DO DESCONHECIDO. 

Naquela escuridão, entre medos e arrepios, só ficávamos a escutar o clicar da máquina fotográfica que, a cada segundo, era disparada pelo amigo astrônomo. Enquanto uma suave brisa batia em nossos rostos, a cada metro que avançávamos, o medo aumentava, sempre mais e mais. Chegou ao ponto de nossa adrenalina estar tão alta, que qualquer movimento ou barulho em falso, por mais simples que fosse, seria o suficiente para detonar uma reação em cadeia, que nem mesmo os irmãos alienígenas saberiam contornar. Seria, uma reação tão desastrosa e imprevisível, que possivelmente, em questão de segundos, despencaria gente para tudo enquanto é lado. O mestre astrônomo, coitado, teria que se virar sozinho, pois, certamente, ficaria abandonado dentro do carro, a mercê dos possíveis ET’s ou mesmo de quem fosse. 

Foi naquele exato momento que nosso motorista, articulando intimamente a possibilidade de outra retirada de emergência, foi logo pedindo que todos entrassem novamente dentro da Vemaguet. O Velho Mestre, não gostando em nada da ideia, ficava a resmungar insatisfeito, dizendo que estava muito abafado, e que não caberia tanta gente dentro do carro. Enquanto resmungava, simplesmente era espremido e sufocado num canto do banco dianteiro da Vemaguet.

Após todos entrarem, nosso motorista, como era de se esperar, afundou novamente o pé no acelerador e, para nossa surpresa e desespero, nos lançou a toda velocidade, AO ENCONTRO DO OVNI!!! Talvez quisesse, de uma vez por todas, acabar com aquela angustiante e interminável tortura e ansiedade. A GRITARIA era geral, e nossos olhos, cada vez mais fixos e arregalados à frente, viam aquele objeto cada vez mais se aproximar. A Vemaguet, de tanto peso e velocidade, começou a cheirar queimado e a tremer sem parar, dando inveja a muito ônibus espacial reentrando na atmosfera. Ela, a Vemaguet, tremendo por fora, e nós tremendo de medo por dentro.

Enquanto isso, a coisa foi se revelando aos poucos. Faltando uns 20 metro para o final da pista, nosso comandante e motorista acelerou ainda mais.  Era tudo ou nada! Uns gritavam, outros tampavam os olhos, alguns até cantavam... Teve gente até se abraçando pra não chorar. 

Faltando ainda uns 10 metros, fizemos uma curva superperigosa à direita e, passando igual a um foguete pelo local, tivemos apenas alguns segundos para visualizar. A velocidade era tanta, que, enquanto íamos, já estávamos voltando. O tempo de observação foi mínimo, mas suficiente para começar a nos revelar o tão esperado MISTÉRIO...
Foi quando alguém sentado no banco de trás manifestou-se naquela confusão, fazendo a mais inesperada das observações:
-       Hiiiiiii!!!!!! Tem placa... E acaba com nove!
-       Tem o quê??? - gritou o velho astrônomo.
-       Sei lá! Acho que foi ilusão de ótica! - retrucou um de nós!
-       Com placa ou sem placa, não sou eu quem vai voltar pra ver! – bradou o nosso motorista, batendo em retirada a uns cem por hora. 

Daí pra frente, creio que vocês já imaginam. Diante de uma decepcionante, mas aliviada surpresa, o que aconteceu, realmente, é que nos deparamos, frente a frente, com uma KOMBI, isto mesmo!!! UMA KOMBI!!! Estava ela há mais de duas horas estacionada naquele lugar, de luz acesa. Provavelmente, um casal de namorados que, certamente alheios e indiferentes a tudo e a todos, tranquilamente se amavam. Do lado de fora, ao relento, é que a coisa realmente pegava fogo, pois alguns lunáticos malucos corriam desenfreadamente, atrás do nada, para chegar a lugar nenhum. 

Vendo de que realmente se tratava, nossa decepção foi tanta, que um profundo silêncio tomou conta de todos naquele momento. Ninguém falava nada e muito menos olhava para o outro. Enquanto a Vemaguet ia, aos poucos, perdendo velocidade, já se podiam escutar algumas tímidas risadas. 

O velho astrônomo, ainda mais decepcionado e pulverizado de poeira, tossindo sem parar, não mexia um único fio de cabelo. Estático, olhando duro para frente, com a cabeça branca de sujeira, resmungava baixinho, algumas palavras, que mais pareciam:
- ME DEIXEM EM CASA POR FAVOR!  

Imagino que, provavelmente, seus pensamentos, naquele instante, eram de absoluta e profunda preocupação. Acaso uma notícia dessas vazasse, seria para ele um verdadeiro escândalo, principalmente perante seus colegas e antigos alunos da comunidade científica brasileira. Imaginem... PROFESSOR, CIENTISTA E ASTRÔNOMO SAIU DE SUA CASA À NOITE PARA FAZER CONTATOS IMEDIATOS COM UMA KOMBI. E o subtítulo: NA RETAGUARDA, SEGUIU COM ELE UM BANDO DE RAPAZES MALUCOS QUE NÃO TINHAM O QUE FAZER”. Coitado!!! 

Quando o levamos para casa, era de dar pena, pois, assim como nós, estava de poeira da cabeça aos pés. Quando tirou os óculos para limpá-lo, havia até um círculo branco em volta de seus olhos. Sem dar uma única palavra, e sem mesmo olhar para trás, foi rapidinho entrando pelo portão, amparado pelo filho. Mais tarde é que ficaríamos sabendo que ele, na verdade, achou tudo o maior barato e que tinha se divertido bastante. 

Na realidade, éramos nós que, para ele, NÃO FAZÍAMOS PARTE DESTE MUNDO (palavra de astrônomo).

Para finalizar, ainda teríamos uma última surpresa, pois nosso amigo astrônomo, após revelar os negativos, observou que não saiu absolutamente nada. Interessante que ele era extremamente hábil e experiente em fotos de altíssima dificuldade e precisão. Entre os mais místicos, o MEGAEFEITO MAGNÉTICO da nave teria levado as fotos a se queimarem, e o que houve mesmo, naquela noite, foi a MATERIALIZAÇÃO do objeto voador não identificado em uma KOMBI. 

Crônica: Serjão Missiaggia
Foto     : fotomontagem de Jorge Marin em foto de Marcus Martins

terça-feira, 6 de setembro de 2016

SERJÃO 60 - O COMANDANTE DO BLOG


Hoje o meu amigo, e parceiro de Blog, Serjão completa sessenta anos.

Serjão é uma pessoa que sonha. E sempre sonhou muito, desde menino. Ontem, em sua coluna no Estadão, o historiador Leandro Karnal, falando sobre o processo de envelhecer, dizia que jovens chatos serão velhos chatos, o que nos leva a afirmar que jovens sonhadores serão velhos sonhadores.

Tornar-se sexagenário só vai fazer do Serjão uma coisa: um sexagenário sonhador!

E que sorte temos nós que convivemos com ele! Pois conviver com um sonhador é conhecer realidades que nunca existiram ou sequer venham a existir. É saber de histórias muito mais ricas que as que realmente aconteceram.

Tive a felicidade, ou a graça, de encontrar Serjão num desses momentos de sonho, no qual sonhava levar para a Internet o Pitomba, nosso eterno sonho de juventude.

Queria contar os casos da banda. Como estava desempregado (aposentado), topei o projeto na hora, pois uma coisa que aprendi sobre empreendedorismo é que o melhor sócio é um sonhador.

Assim, comecei a receber os casos contados pelo Serjão. Mas o que logo percebi é que o grande barato não era o caso em si (a maioria eu já conhecia), mas sim a FORMA com a qual ele contava.

E dessa forma, fã e sócio, passei a viajar ao passado em aventuras QUE FORAM, QUE NÃO FORAM, QUE PODERIAM TER SIDO e até mesmo aventuras QUE SERÃO AINDA.

Dessas que serão ainda, espero fazer parte.

Serjão, definitivamente, é o cara. O que cara que sonha! Felicidades, amigo.

Texto: Jorge Marin
 Foto : Sílvio Heleno Picorone

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

SE ESSA RUA FOSSE A MINHA


QUEM JÁ VIVEU ALGUM MOMENTO MARCANTE NESSA RUA???

Foto de hoje: Serjão Missiaggia
Trat.imagem: Jorge Marin

TODA CASA TEM UM CASO


QUEM CONTA ALGUM CASO SOBRE ESSA CASA???

CASA DA SEMANA PASSADA - Maninho Sanábio, Marcelo Oliveira e Alex Geraldi foram os primeiros a acertar: casa do Hélder Furtado e Rita Rocha.

Foto de hoje: Serjão Missiaggia
Trat.imagem: Jorge Marin

CASOS CASAS & mistério ???


QUEM SABE ONDE FICA ???

ACERTADORES DA SEMANA PASSADA - mais uma vez, o Maninho Sanábio reconheceu a casa da Avenida Carlos Alves. Ele chegou até a confundir com uma da rua da Fábrica, mas depois acertou.

Foto de hoje: Serjão Missiaggia
Trat.imagem: Jorge Marin

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

QUEBRANDO A CORRENTE


Não sei se devido a alguma forma de ligação com a escravatura (que era legal até 1888, mas não aceito), o fato é que não curto nenhum tipo de corrente me prendendo. Lógico que são assuntos que poderiam ser aprofundados aqui, mas quero falar de uma outra coisa.

A corrente que recebi nesta semana não é daquele tipo real, de ferro, mas uma corrente virtual, dessas que circulam pelo Facebook. A que eu recebi me convidava para “fazer uma corrente para unir o casal” de apresentadores da TV Globo, recém-separados.

Ora bolas, pensei. Se o casal, depois de um período que imagino sofrido, de discussões, desencontros e angústias, DESEJA se separar, por que é que eu, que não tenho nada com isso, vou organizar um grupo para unir o tal casal? A mim me parece um tipo de estupro “do bem”, se é que tal coisa pode existir.

Chato de natureza e detentor de tempo, questionei a pessoal que me enviou a corrente, e ela me disse que, quando sabemos que uma coisa é a certa a fazer, temos o dever ético de tentar fazê-la.

Mas aí eu me pergunto: como é que eu sei que uma coisa é eticamente certa? Penso que existem, sim, essas coisas: é o bem-estar das pessoas, o sossego público, a paz, o direito de ir e vir, entre outros.

No entanto, arbitrar por minha conta que uma determinada coisa deve ser feita, SÓ porque eu acho, baseado em minha religião, ou em minhas crenças, ou meus preconceitos, que aquilo deva ser feito, penso que é uma TREMENDA violência!

Vejam, por exemplo, o caso das mulheres (mesmo em pleno século XXI). A garota pode estar terminando o seu doutorado, com toda a dedicação e empenho que a questão, para grande parte das pessoas AINDA é: se tá solteira, tem que casar. Se casar, tem que ter filho. Se tem filho, tem que ser a melhor mãe do mundo. Se quiser ser a melhor mãe do mundo, tem que ter uma religião (“seu filho não vai batizar? ”). E por aí vai.

Se for homem, a coisa não muda muito. Embora até seja mais aceito que ele não se case, ele deve ter namoradas, de preferência mais de uma (isso HOJE, no século XXI!). Se não casou, e não tem namorada, então é porque é gay. Se for gay, AINDA é visto com um misto de perplexidade e desconfiança. “Mas como pode ser? O Fulano é tão forte e bonito! ”.

A verdade é que a ética não pode ser uma coisa estática, congelada. Mudar a ética, ou pelo menos propor novas abordagens em virtude dos novos tempos, demanda, no entanto, um pouco de senso crítico. E inteligência.

Será que é por isso que compartilham tanta imbecilidade?

Crônica: Jorge Marin

BRIGADU, GENTE!

BRIGADU, GENTE!
VOLTEM SEMPRE, ESTAMOS ESPERANDO... NO MURINHO DO ADIL