
Capítulo Final - Cara a cara com a perereca
Por que será que os rapazes têm essa fixação por orifícios? Esta pergunta, mais do que uma questão filosófica, é como terminamos nosso episódio da semana passada: um bando de marmanjos, se acotovelando no fundo de um palco, para uma possível olhadela num banheiro feminino. Como diz o provérbio, a realidade nunca dá tanto quanto a imaginação promete. Mas, neste caso, a imaginação era muito fértil. Para evitar um conflito sangrento, que levantaria suspeitas ao público do baile (é gente, o baile não parou), foi feito um sorteio.
Fui o segundo no par ou impar, mas, para minha felicidade, aquele que seria o primeiro teve, naquele justo momento, que voltar para o palco. Então, muito a contra gosto assumi a primeira colocação. Mas teria, a pedido dos demais, a incumbência de ir narrando, passo a passo, tudo que via. Dessa forma, após subir num pequeno banquinho, lá fui eu, já com as pernas meio bambas, dar minha modesta espiadinha. E o baile, enquanto isso, corria solto! Haja coração!
De imediato, reparei que o local deveria ser uma sala anexa aos banheiros, pois o que mais se via era mulher retocando maquiagem, cabelo, abotoando calça e ajeitando sutiã.
Pelos meus cálculos, o buraco, coincidentemente, teria varado próximo à pia e um pouco abaixo do espelho. Até o momento, eu ia narrando, somente nariz, e muito nariz era minha principal visão.
Um tanto decepcionado, e já pensando em passar a vez ao próximo, eis que, repentinamente, me entra no recinto uma linda morena de olhos verdes. Aparentava pouco mais de vinte e cinco anos. Desta forma, sentindo nas entrelinhas que finalmente era chegado o meu grande momento, pedi que aguardassem um pouco mais! Foi difícil convencê-los, mas consegui!
E lá veio ela se aproximando. A expectativa foi geral e um imenso silêncio tomou conta de todos nós.
Ficando frente ao espelho, e já quase cara a cara comigo, após dar uma bela ajeitada no sutiã, ameaçou tirar a blusa. Nesta hora, não se ouvia um único gemido do nosso lado. Pensando bem... até que se ouvia!!!
Enquanto minhas pernas ainda mais tremiam, procurava, na medida do possível, ir narrando aos distintos parceiros, detalhe por detalhe, tudo aquilo que estava vendo.
Era um empurra empurra danado, pois todos queriam acompanhar, em tempo real, e da melhor maneira possível, minha narrativa. O negócio era ver, ou simplesmente imaginar, o que realmente estaria acontecendo do outro lado daquela porta.
Já no ápice daquele que seria o grande momento, quando a cena parecia que finalmente iria ser bondosa comigo, o inusitado mais uma vez acontece.
A linda morena, ao se aproximar perigosamente do buraco, simplesmente, num ato de extrema falta de educação com minha escondida pessoa, após sacar da boca uma bela dentadura, se é que podemos dizer que exista algum grau de beleza naquilo, ainda começaria, a menos de meio palmo do meu nariz, escová-la com os dedos.
- E lá se foi minha musa! - pensei! Por sinal, sem um dente sequer na boca. Isso pra não falar que um pequeno rastro de mau hálito ainda conseguiria ultrapassar aquele pequeno orifício.
Eu, enquanto isso, para não perder a pose, e muito menos sem deixar que a peteca caísse, continuei simplesmente a narrar pra galera, aquilo que na verdade não estava vendo. Ou seja, um strip completo. Foi torturante, mas acredito que fui capaz de enganá-los. A eles e a mim!!!
Neste meio tempo, o baile já estava quase terminando. Seria bem melhor que estivesse tocando! E como! Pelo menos não teria sido tão broxante!
Indispensável introduzir aqui algumas considerações odontológicas sobre a perereca. Um dentista, que nos prestou assessoria para esta história, informa que este é o nome popular da P.P.R. (Prótese Parcial Removível), colocada provisoriamente na boca da paciente que aguarda a oportunidade de fazer um implante. Ou seja, o caminho natural, segundo nosso profissional, é que a moça tire a perereca para que o dentista possa implantar o fixo, ou fazer o enxerto, segundo ele. Lembrou que é altamente recomendável que não se durma com a perereca na boca pois, ainda segundo o odontólogo, há um risco, pequeno, de engoli-la. Se bem que, conclui, os riscos são menores nos dias de hoje, pois as pererecas possuem um tamanho mais avantajado. Eu, hein?
Já na volta, e pra finalizar, devido a uma certa intolerância que alguém tinha a temperos e condimentos, tivemos que, por duas ou três vezes, parar na beira da estrada para que assim, pudéssemos abrir a Kombi. O negócio era evacuá-la o mais rápido possível (aliás, a sensação é de que ela já estava toda evacuada). Coitado do Zé. Só ele levava a culpa. Com o tarol no colo, vinha sempre cochilando sossegadamente, no banco da frente. Sempre entre a Nely e o motorista. Mas era constantemente acordado por ela. Furiosa, acusava o pobre irmão de estar fingindo dormir, no intuito de poder ficar praticando o tal indecoro flatulamentar.
Mas eu tenho absoluta certeza de que não era ele!!!
(Crônica: Serjão Missiaggia / Adaptação: Jorge Marin)