
Finalmente, pintou o tão esperado baile intermunicipal. Fomos contratados a tocar em, nada mais nada menos, do que em Argirita, numa fazenda chamada Vitória. No momento de fechar o contrato, o contratante perguntou ao Márcio Velasco:
- Qual é mesmo o nome do conjunto?
- Mercado Negro – respondeu prontamente o Márcio, sendo este, até hoje, um dos grandes mistérios da história do nosso conjunto. Por que teria o bravo baixista dado este nome tão enigmático? Teria sido por causa do guitarrista do conjunto da Nely – o Antônio – que iria reforçar o grupo? Ou será possível que era o Márcio aquele chato que queria chamar o Pytomba de Talisia Esculenta (vide segundo post, abaixo) e, só de sacanagem, deu este nome ridículo. O espaço está aberto aqui para a manifestação, ou para a revelação do Márcio!
E lá fomos nós, rumo a Argirita, relaxadamente, após dar sabe quantos ensaios? Pois é, nenhum! A coisa estava sendo encarada na farra, mas tão na farra que o Paulinho Caturra, nosso motorista, já quase chegando ao trevo, resolveu voltar para pegar seu trombone. Afinal, tocar numa fazenda seria moleza, imaginávamos, enquanto, alegremente, seguíamos viagem.
Antes de sair, tivemos o cuidado de comprar duas garrafas de Menicucci, para já irmos fazendo a cabeça no caminho. Como sempre, este etapa foi levada muito a sério, pois, antes mesmo de chegarmos a Bicas, já havíamos secado as duas.
Quando paramos para abastecer, o funcionário do posto, ao abrir a porta da Kombi, levou um baita susto, pois de dentro do carro, um de nós, com baqueta e tudo, arriou aos seus pés. E notem que o conjunto nem havia chegado ainda ao destino!
Seguindo viagem e chegado, mais ou menos, ao local combinado, começamos a observar uma intensa movimentação na estrada. Inúmeros carros, num incrível congestionamento, se cruzavam na pista, em busca, de uma possível vaga, pois os dois lados da estrada estavam completamente ocupados.
Homens passavam de um lado ao outro, impecavelmente a rigor. Mulheres com seus vestidos longos e rosas na mão, ficavam a desfilar pela pista, acompanhadas de seus parceiros com seus ternos e gravatas.
Dando então uma breve parada no local, e aproveitando a passagem próximo a Kombi de um rapaz perguntamos:
- E aí meu amigo! A fazenda Vitória, fica muito longe daqui?
Para nossa surpresa - e desespero - ele, de imediato, nos responde:
- É aqui mesmo! Vocês são do conjunto?
O silêncio foi geral nesta hora. Teve gente até querendo voltar de qualquer jeito. Pois, foi neste exato momento, que ficaríamos sabendo que iríamos tocar em um baile que elegeria a Rainha da Primavera de Argirita.
Quem quebrou o silêncio foi o Serjão:
- Gente, como é que toca valsa na bateria? O pânico se espalhou, uns vomitavam, mas o que fazer? O contrato já havia sido fechado e todos teriam que se virar de qualquer jeito.
No estacionamento, outra surpresa: uma cobra jararaca, também impecavelmente pronta para o bote. Mas, felizmente abatida pelo nosso bravo motorista Paulinho, que a esmagou com o seu trombone.
Por incrível que pareça, o baile fluiu de forma não totalmente catastrófica. O repertório ia sendo fielmente executado: The End, Oh My Love, My World, De Tanto Amor, Imagine, Look Around And You’ll Find Me There. Até que... de repente, o aparelho da guitarra, num barulho ensurdecedor, começou a apitar sem parar. Aí, já viu né, mexe de cá, mexe de lá, e Sílvio Heleno, vendo que aquela coisa não parava de apitar, teve um insight radical e sentou-lhe um potente bicudo. Jogando o impertinente aparelho bem no meio salão. É bom lembrar que Greg Lake, do Emerson Lake and Palmer repetiria esta performance alguns anos mais tarde... E não é que a coisa funcionou? Expurgado o aparelho, tudo começou a funcionar novamente! Deu até para terminar o baile. Mas, que sufoco...
O sucesso foi tamanho que, durante muitos anos, centenas de moças, para ser exato uma centena (na época era a totalidade da população feminina da cidade) fretavam ônibus para São João em busca dos gatos do conjunto Mercado Negro. Coitadas, até hoje permanecem frustradas, e, atualmente, distintas senhoras, ficam sentadas junto às janelas, suspirando pelos velhos tempos.
(Texto: Serjão Missiaggia / Adaptação: Jorge Marin)
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