
CORAÇÃO DE ÉS TU, DANTE? - TERCEIRO CAPÍTULO
(Roteiro original - Serjão Missiaggia / Adaptação - Jorge Marin / Arte - José Carlos Barroso)
Na semana anterior, havíamos chegado às semifinais do campeonato macabro do medo.
No entanto, é bom que se diga, embora até o momento só tenha sido passada a face irada do professor Ubi, este possuía um entusiasmo e um senso de humor refinadíssimos. Ele adorava contar a história de como, certo dia, em frente à delegacia, um burro resolveu empacar e o carroceiro, desesperado, puxava o animal e gritava ofegante “Vamos, vamos!”, até que o sr. Ubi chegou na porta da delegacia e falou:
- Vira a carroça ao contrário. Assim fez o carroceiro, e, segundo ele, funcionou.
De outra feita, após esperar num salão de barbeiro, para cortar seu cabelo a la príncipe Danilo, como era de costume, este profissional falava, falava, adiando indefinidamente o atendimento ao perspicaz mestre. Quando, cerca de uma hora e meia depois, chegou sua vez, e o barbeiro perguntou “como o senhor que eu faça seu corte?”, ele sapecou: “Calado!”
Só que a única maneira de desfazer esse bom humor, era fazer exatamente o que fizemos: aprontar. O sr. Ubi era famoso por fazer os estudantes matões de aula pular o muro de volta, e até dar umas “incertas” na porta do cinema.
Enquanto isso, na sala da injustiça, um a um, ainda teríamos que passar por uma outra eliminatória... Digo interrogatório. Desta vez, lá na secretaria. (Neste meio tempo, já era quase meia-noite).
Dantinho foi o primeiro a ser chamado.
Enquanto aguardávamos seu depoimento, Custódio, não resistindo à pressão psicológica, pulou o muro dos fundos do colégio e sumiu. Foi visto, por volta de meia- noite e meia, lá pelas bandas de uma das ruas de acesso ao bairro Santo Antônio. Detalhe: com a calça toda rasgada! Possivelmente, um imprevisto ao tentar ultrapassar a cerca de arame farpado.
Clarê, até então calmo e sereno, resolveu, de repente, encarar um dos muros laterais do colégio. Coitado! O seu destino, até hoje, é incerto e não sabido. Segundo as lendas, foi cair exatamente no terreiro da Rosicleide. E justamente em cima da casinha do Amigo, um sistemático cãozinho pastor alemão. Nada simpático e de quase um metro de altura. Segundo me disseram o referido cão, detestava alunos. (Coitado do Clarê!)
Enquanto Dantinho chorava de um lado, Clarê gritava e pedia socorro do outro. Fiquei no meio sem saber se ria ou chorava.
Como se não bastasse, além de ficar sozinho na sala, teria ainda que ficar escutando, ao longe, os devidos corretivos que o Ti Bibi dava lá na secretaria.
Quase quarenta minutos haviam se passado. Um silêncio funesto, já há algum tempo, se fazia perceber nos corredores vazios do colégio.
Quer saber de uma coisa? - pensei eu. Eu vou é me mandar daqui. Sei lá o que pode estar acontecendo com o pobre do Dantinho.
Pior que, naquela hora da noite, com o ginásio todo trancado, teria como única opção, passar pelo corredor da secretaria.
Era tudo ou nada. A única certeza que tinha era a de não tentar fazer uma arriscada travessia na cerca de arame farpado e, muito menos, cair na casinha do Amigo.
Desta forma, sabendo de antemão, que eles estariam na sala do Ti Bibi e que o referido local oferecia uma visão estratégica da saída, procurei sorrateiramente, tentar ir passando bem de mansinho.
Antes mesmo de entrar pelo corredor, tive a infelicidade de querer dar uma última olhadinha e ver o que estava acontecendo com meu primo Dantinho. Queria saber, a qualquer custo, qual seria o grau de interrogatório que estava sendo aplicado.
A cena, lá dentro, ia de mal a pior e o Dantinho não parava de chorar.
Enquanto, em prantos, jurava inocência, comecei empurrar suavemente aquela portinhola de faroeste que separava o pátio do corredor de saída. Queria a todo custo me mandar dali.
Foi neste exato momento, que pude escutar, quando Dantinho, soluçando, disse ao professor Ubi:
- Eu juro, Sr Ubí! Pode perguntar ao Sérgio, que ele sabe que sou inocente!
Já adentrando pelo corredor, eu estava, nesta hora, acabando de colocar um de meus pés naquelas velhas tábuas do assoalho. Por infelicidade minha, fui surpreendido com um grande estalo da madeira.
Antes que conseguisse alcançar a porta, escutei, lá de dentro:
- Entra prá cá, Sérgio. Tá achando que vai aonde? Aproveita e chama o Clarê e o Custódio!
Gelei... O que é que eu vou dizer agora? E como digo que será impossível chamar o Clarê e o Custódio? Nesta hora, juro que tive vontade de encarar o Amigo, mas, como não havia mais tempo de voltar atrás, resolvi andar para a frente, e encarar o meu destino. Mas, como???
A resposta final e definitiva, como tudo é definitivo na vida de um adolescente, será conhecida na próxima semana. E, se alguém souber o paradeiro correto do Clarê naquela noite, informem com urgência, para resgatarmos a História.






