
CORAÇÃO DE ÉS TU, DANTE? - PRIMEIRO CAPÍTULO
(Roteiro - Serjão Missiaggia / Adaptação - Jorge Marin)
Em 1971, após um fatídico segundo ano ginasial, minha querida e saudosa mãe me transferiu para o turno da noite, no Ginásio do Sôbi. Minha tia, pela mesma razão e mais que depressa, também transferiu meu primo Dante. Como já dizia o velho ditado: “Um gambá já cheirava o outro”
Fomos fazer o curso básico, na justificativa, ou na esperança, de que estaríamos com pessoas mais maduras e responsáveis.
E assim foi feito e justamente aí que começou toda história:
Numa bela noite, ao entrar na sala, após o término do recreio, vi que algo estranho acontecia.
De antemão, já haviam me informado que um livrinho de sacanagem estava rodando misteriosamente pela sala. Lembram-se daqueles livrinhos em preto e branco do Carlos Zéfiro?
Pois foi exatamente um desses que o maluco do Magela, teve a coragem de levar na escola.
Até aquele momento só havia visto de longe. Esperava ansioso, pelo término das aulas, para que, assim, pudesse ver com mais calma.
Naquele ano, estudávamos numa daquelas salas onde havia duas portas de acesso e, para minha felicidade, após retornar do intervalo, entrei justamente pela de trás.
Ao ver aquela muvuca, formada lá na frente, tive o pressentimento de que alguma coisa iria acontecer. (Não deu outra!)
Fui para os fundos da sala. Mal havia me sentado quando, de repente, pude sentir um estranho vulto branco, silenciosamente se posicionando em uma das portas. Já imaginando quem poderia ser, tive a vontade, naquele momento, de poder avisá-los, mas já era tarde demais. Ele já estava bem mais próximo do que eu.
Este vulto, que todos também já devem estar imaginando quem seja, começou então, sorrateiramente, a fazer uma incrível aproximação. Dava inveja em muito gato. Pressentia, com certeza, que aqueles alunos seriam presas fáceis.
Era uma rodinha de aproximadamente dez colegas. Todos sentados em círculos, nas primeiras carteiras da sala.
Quanto mais ele se aproximava, mais suado eu ficava. Pisava tão de mansinho que os meninos nem observavam. Chegou ao cúmulo de conseguir esticar o pescoço sobre eles e ficar olhando tudo por cima.
Dante foi o primeiro a vê-lo. Ficou estático e mal se mexia.
Magela, na ânsia de tentar esconder a revista, deixou cair uma página aos pés dele. Era ELE mesmo: nada mais nada menos do que o professor Ubi em pessoa. E, pior, de terno impecavelmente branco!!!
Custódio, que também estava na rodinha, e vendo aquela página aterrissar suavemente próximo ao pé do amado, e temido, mestre, procurou rapidamente pisar sobre ela, numa desesperada tentativa de ocultá-la.
Magela, nesta hora, se mandou. Segundo disseram, desceu aquela escadaria do ginásio, sem mesmo por o pé em um único degrau.
Enquanto isso, o velho mestre queria saber (como se já não soubesse) o que é que o Custódio estava escondendo sob o sapato. Este, coitado, estava tão apavorado, que foi preciso que o próprio Sr. Ubi levantasse seu pé para que pudesse enfim visualizar e ter uma noção do que se tratava.
E assim, após conseguir pegá-la, é que pôde, realmente, ter uma idéia, da gravidade do fato.
Mas, afinal, quão grave teria sido a situação? E qual a reação do implacável diretor? Vocês, rapazes, que já foram surpreendidos fumando no pátio, e vocês, meninas, que já se ajoelharam para medir o comprimento das saias, podem bem imaginar o discurso e a explosão de cólera que estava por vir?
E eu? O que é que eu faço? Lembrei da música “Na janela lateral...” Será que dá pra pular???
A resposta aterrorizante para estas e outras questões, inclusive umas da prova de Geografia, estarão no próximo capítulo. Haja coração... de estudante!!!